sábado, 20 de julho de 2019

Belo Desastre



Sabem aqueles livros lidos mil vezes, com marcas de uso ou do tempo, que você já sabe o final mas relê mesmo assim, porque são um tipo de “comfort book”? Um cobertor emocional para quando você não consegue ler nada novo, ou simplesmente não quer mexer na pilha “não-lida”?

Se você é leitor, tenho certeza que sabe exatamente do que estou falando.

Foi com esse sentimento que minhas mãos se estenderam para o livro de estreia de Jamie McGuire, “Belo Desastre”. Meu exemplar já tem algumas coisinhas que denunciam sua “idade” – incluindo elementos da história, mas disso falarei mais adiante -, contudo o amor entre Travis “Mad Dog” Maddox e Abby “Beija-Flor” Abernathy ainda consegue trazer um pequeno sorriso ao meu rosto. Há algo em um bad boy apaixonado e uma mocinha relutante que parece não perder o encanto pra mim, mesmo com o passar dos anos e dos livros similares. Mas, é inegável que o “desastre” no título faz jus à história contada.

De forma resumida, a narrativa se passa nos primeiros anos universitários de Abby e Travis, aquele período de transição para adultos já tão explorado. Ela é o protótipo da “boa menina”, com uma ideia muito clara de quem quer (aparentar) ser, desde o modo de se vestir até o cuidado em escolher com quem se relacionar. Ele é o garanhão da faculdade com uma péssima reputação, mas ótimas notas, uma infinita lista de conquistas, tatuagens e um estilo de vida completamente oposto ao de Abby. Ou assim parece. Os dois se encontram de uma maneira considerada inusitada para a época de sua  publicação, mas que hoje é batida. E qual maneira seria essa? Um círculo underground de lutas, onde Travis é o grande macho alpha. 

Depois de muitos músculos expostos, suor, sangue em cardigãs, diálogos ácidos, respostas espertinhas e uma deliberada aposta, os dois acabam morando juntos. E é aí que o “belo desastre” começa. Como muitos livros, a questão nem é muito “se” os personagens ficarão juntos, mas “como” e “quando”. Mais ainda, “ficar junto” acaba em segundo plano diante de uma possibilidade ainda mais atemorizante: conseguirão ficar juntos? Nem mesmo Travis Maddox sabe se vai conquistar a garota, ou exatamente por quê a quer e olhem que o cara é dono de um ego gigante. O que ele sabe é que as coisas ficam melhores com ela ao seu redor e isso seria algo apenas egoísta da parte dele, se não houvessem sentimentos reais envolvidos.

Abby Abernathy fugiu para ficar longe do tipo de vida na qual Travis é um especialista. Com uma língua afiada, determinada a se dar bem, focada no que quer, Abby tinha MUITO potencial. Seu problema mais contundente como personagem é o fato de deliberadamente negar seus próprios sentimentos e, às vezes, usar os das pessoas contra elas mesmas e em seu benefício. Como torcer para alguém que age dessa maneira? Que tenta, de todos os jeitos, justificar e reduzir o que sente sobre o protagonista e que fica de joguinhos? Se eu tivesse que escolher, diria que mesmo com comportamentos que atravessaram perigosamente a linha “desequilibrado/stalker” muitas vezes, Travis me irritou menos do que Abby nessa releitura.

Quando o passado da protagonista vem à tona, conseguimos entender melhor as motivações por trás dessas ações de Abby e em sua insistência de “ser” alguém específico. Tive pena do que ela passou, pois é o tipo de coisa que absolutamente NINGUÉM consegue viver e não carregar marcas profundas. Só não consigo afirmar que foi o suficiente para justificar tudo de controverso que ela disse ou fez. 

Por outro lado, o passado de Travis não é menos traumático e suas formas de lidar com isso o colocariam no mesmo nível "desastre ambulante" de Abby. Por conta disso, o relacionamento passou a parecer menos abusivo e mais “intenso” para mim. Sei que é uma conclusão perigosa, e tenho minhas dúvidas se o livro seria hoje o sucesso que foi no passado, mas PELO MENOS, tanto Abby quanto Travis sabem que não são lá muito “estáveis” e isso é falado abertamente. O nome de sua história não é “Belo Desastre” à toa e é isso que os dois são, portanto, não é um relacionamento a se ter como “modelo” a ser seguido. 

Como ponto positivo, destacaria a miríade de sentimentos que a leitura acarreta, e que ainda não desvaneceu com o tempo, pois passamos do amor à fúria quase que junto com os personagens numa narrativa vertiginosa, no limite e escaldante como seus protagonistas. De negativo, como já citei, há atitudes que podem ser classificadas como não muito saudáveis e eu gostaria que a autora tivesse explorado melhor alguns pontos em suas histórias e deixado de lado o detalhamento constante das brigas e das idas e vindas dos dois.

Insanidades à parte, ainda é um passatempo divertido. Vamos ver o que a releitura de “Desastre Iminente” me trará! 



Nenhum comentário:

Postar um comentário